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Entrevista do “O Diabo” ao Presidente da Direcção do IDP Julho 18, 2008

Posted by Paiva Monteiro in IDP, Informação, Monarquicos, mch.
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Mendo Castro Henriques, presidente da Direcção do Instituto da Democracia Portuguesa

«Não há desculpa para o abandono do interior»

Embora se perceba que a crise resulta de factores fora do nosso controlo, convém começar a perceber que, para Portugal, boa parte das respostas não dependem de Washington nem de Bruxelas mas apenas de nós mesmos, portugueses

(9 de Julho de 2008)

«a crise é só mesmo para alguns» faz sentido?

MENDO CASTRO HENRIQUES

As crises da energia, dos cereais e a financeira ameaçam o nosso modo de vida. Todas elas vieram ao de cima na «crise dos transportes» em Junho passado, ao revelarem as fragilidades das áreas metropolitanas do litoral, designadamente na logística alimentar e nas mobilidades. O caso continuará a agravar-se porque tem vindo a crescer a concentração de população no litoral, estando o interior do País rarefeito de população, de juventude e de investimento na inovação e investigação.

Em grandes números, 50 por cento do território sem acesso ao mar contêm 20 por cento da população e apenas 10 por cento do PIB. A Grande Lisboa, o Grande Porto e o Algarve ameaçam tornar-se áreas
de risco de abastecimento. O caso ainda é mais gritante porque o grande investimento no sector rodoviário tornou o País numa só grande Região.

Não há desculpa para este abandono do interior, a que eu chamo tratar metade do País como uma «Grande Olivença», quando nele deveríamos criar incentivos e discriminação positiva semelhante aos
que usufruem as regiões de Madeira e Açores.
Entretanto, perante as dificuldades financeiras, teremos que ponderar muito seriamente as decisões sobre as grandes obras públicas nos próximos anos…

Onde se encontram as capacidades financeiras para as grande obras públicas?
Quem vai pagar a quem para sairmos da crise?

Das componentes da crise a mais grave é a financeira. Por muitos factores.
O principal é que os governos actuais não estão interessados no impacto das actividades produtivas, mas apenas no impacto das actividades financeiras. Jean Claude Trichet ao aumentar as taxas de juro no BCE favoreceu quem já tem muito dinheiro….mas os empresários sem capital próprio não poderão adquirir novos equipamentos, nem são elegíveis para novos créditos. Por via da globalização financeira, o dinheiro está a ser canalizado para especulação em vez de poupança no mercado de futuros da energia e da alimentação.
Adicione-se a este facto a chamada «taxa imperial» norte-americana. Um Estado cobra impostos aos cidadãos.
Um império cobra impostos a outras nações. Ora desde que em 1973, o dólar se tornou moeda de referência mundial, nomeadamente do preço do petróleo a exigir reservas, basta aos EUA emitir papel moeda e depois deixar que o seu valor se deprecie para cobrar às nações uma taxa oculta que as crises vêm agora tornar insustentável. Os movimentos de especulação bolsista mundial deixaram de ter correspondência com o ciclo de bens de produção e estão a perturbar o ciclo comercial no mercado das energias e dos alimentos. Com a concentração de capital, as classes médias estão a empobrecer (hipotecas, empréstimos) e o fosso social está a aumentar na Europa e nos EUA, como já sucede nos BRIC.
Qualquer economista gagueja desculpas se tiver de esclarecer o impacto real da bolsa nos movimentos na economia real…A bolsa de Lisboa desceu 20 por cento desde o inicio do ano… Alguns bancos perderam 50 por cento do seu valor em acções. Mas para o agricultor ou empresário, isso não tem significado.

Assim, contra a «teologia neo-liberal de mercado» é preciso afirmar que as economias devem ser alvo de planificação; reter grandes quantidades de capital em mercados de futuros tendo por única
consequência o aumento do custo das matéria primas é um risco social e tenderá a conduzir ao intervencionismo brutal do Estado.

Qual acha que será e evolução provável da crise?

Em 2 de Julho, Robert B. Zoellick, presidente do Banco Mundial, convidou os líderes do G8 e a OPEC a enfrentar os preços crescentes da energia e dos alimentos, porque «o mundo está entrar numa zona perigosa.» Zoellick é um dos poucos dirigentes honestos e esclarecidos da classe política mundial. Mas a resposta vai ser difícil devido à transição lenta para um mundo de poliarquias em que as grandes unidades são a União Europeia, o Bloco norte-americano (NAFTA) a União da América do Sul, a União Africana, a Federação Russa, a Índia, a China, o Japão e OPEC. A seu tempo, estas grandes unidades que dialogam em vários fóruns mundiais terão de usar o seu peso para recompor o sistema de segurança na ONU e criarem novas condições de governabilidade.
Dito isto, temos que saber relativizar as crises. E para sair do jargão das crises contemporâneas apenas acrescento que a polis grega já estava em estado de crise desde o final do séc. VI. Mas decorreu um século e meio antes que as instituições da polis entrassem em colapso no confronto com a Macedónia; e este século e meio originou a resistência nas Guerras Persas, a era de Péricles nas artes e na cultura, a expansão grega no Mediterrâneo, os Sofistas, Sócrates e Platão.

Significa isto que o nosso mundo não vai acabar mas tem que saber responder mais rapidamente às crises.

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